'Escrever é um desejo sempre insatisfeito'
O Globo - Segundo Caderno - Rio De Janeiro - RJ - Terça-feira, 28 de outubro de 2025
ESCREVER É UM DESEJO SEMPRE INSATISFEITO'
RUAN DE SOUSA GABRIEL rsgabriet@edglobo.com.br SAOPAIRO
A inda criança, Cristina Peri Rossi confessou a seu tio Tito 0 desejo de ser escritora. O tio lembrou a menina que havia só três au- toras mulheres em sua bibli- oteca Virginia Woolf, Al- fonsina Storni e Safo e perguntou sabia como elas tinham morrido. "Co- meteram suicídio", ela res- pondeu. "Pois aprenda a li- ção. As mulheres não escre- vem, e, quando escrevem, se suicidam", avisou Tito. Nem assim ela desistiu. Cristina sempre foi obstina- da. Não toa, titulode suas memórias de infância, re- cém-publicadas pela Bazar do Tempo, insubmissa". Cristina tem 83 anos e é um dos maiores nomes li- teratura em língua espa- nhola. Vencedora do Prê- mio Cervantes, é tida como única mulher do boom lati- no-americano dos anos 1960 1970 rejeita esse título. Sua obra transita en- tre a prosa ea poesia e explo- ra a natureza do desejo e os múltiplos significados do exílio. Em 1972, um ano an- tes do início da ditadura uruguaia, ela precisou dei- xar 0 pais. Seus livros, que exaltam 0 amor entre mu- lheres, estavam proibidos, assim como: a menção ao no- me dela na imprensa. "Si-
ENTREVISTA CRISTINA PERI ROSSI, escritora
DESCOBERTA PELOS LEITORES BRASILEIROS, AUTORA URUGUAIA VENCEDORA DO PRÊMIO CERVANTES, QUE É FÃ DE CLARICE E BETHÂNIA, DIZ QUE NEM 0 AMOR NEM A LITERATURA TÊM GÊNERO E REJEITA RÓTULO DE ÚNICA MULHER DO BOOM LATINO- AMERICANO QUE REVELOU 0 AMIGO CORTÁZAR
lêncio. Orai: ela abriu as pernas. Todo mundo de joe- lhos", ordena O poema "Ora- ção", incluído na antologia "Nossa vingança é 0 amor", lançada pela Editora 34.
Até este ano, só um livro da uruguaia havia sido tra- duzido por aqui: "Espaços intimos" (Gradiva, 2017). Mas O Brasil esta enfim des- cobrindo Cristina Peri Ros- si. Tanto "A insubmissa" quanto "Nossa vingança é amor" já foram reimpressos e, em 2026, saem romance "La nave de los locos" (Bazar do Tempo) "Julio Cortázar y Cris" (Editora 34), recor- dações de sua amizade com 0 escritor argentino.
Problemas respirat que persistem desde a in- fância impediram Cristina de conceder uma entrevista por video ao GLOBO. Por e- mail, ela falou sobre nunca ter voltado do exilio em Bar- celona, do amor por Clarice Lispector Maria Bethânia, do arrepio com interpreta- ção da cantora Maysa e da recusa de sua família em ler seus livros.
insubmissão foi uma escolha? Foi tanto uma predisposi- ção natural quanto uma es- colha. Não sabia O que era insubmissão até que al- guém, provavelmente mi- nha avo, me recriminou por ser insubmissa. Nunca acei- tei normais sociais baseadas
em preconceitos ou ordens que me parecessem injus- tas, viessem de quem fosse: do meu pai, da Igreja ou do governo. Decidi ser fiel a mim mesma.
insubmissa" conta que sua família considerava alusões ao passado desnecessárias, inadequadas e desinteressantes. Ainda assim, você escreveu um livro de memorias.
Escrevi "A insubmissa" sem um propósito determinado. Talvez a literatura não baste para preencher O vazio pro- fundo que é a passagem do tempo. Ninguém da minha fa- mília jamais leu um livro Minha mae me disse: "Não quero saber oquevocê pensa sente". Para além da dor que me causou, essa resposta me fez compreender que os seres humanos, em geral, não que- remos saber de nada que pos- sa nos ferir ou fazer sofrer. Isso vale tanto para aquele que se recusa a reconhecer que é mortal quanto para quem não admite estar doente ou viver sob uma ditadura.
Seus grandes amores na infância foram sua mãe uma jovem chamada Mabel, que voce conheceu quando morou no campo para tratar os pulmões. 0 que aprendeu com elas sobre amor? Eu ainda não sabia 0 que era o amor. Acontece de sentir-
mos e vivermos intensa- mente algo sem saber seu nome. Teria dado minha vi- da por elas tinha consciên- cia disso. A máxima prova de amor é dar vida pelo ou- tro. Com elas, aprendi que amor pode ser efêmero, de- vido às circunstâncias, e ao mesmo tempo impossível de esquecer. Se eu pudesse definir completamente O que são O amor e 0 desejo, não teria por que continuar escrevendo. Escrever tam- bém é um desejo. E 0 desejo ésempre desejo insatisfeito, senão deixa de ser desejo.
Por que nunca voltou do exílio em Barcelona? Porque os governos demo- cráticos uruguaios parecem
"Sou avessa a classificações. Não lemos Cervantes porque ele é homem, assim como não quero ser lida apenas por ser mulher"
ter se esquecido de mim, não reconheceram meus ti- tulos universitários nem meus anos de docencia. De- vo ter conquistado inimigos muito vingativos. Voltei es- poradicamente ao Uruguai após a queda da ditadura, mas jáestava ha tantotempo na Espanha que não queria voltar a sentir nostalgia. Agora, de Barcelona. Naver- dade, não podia haver um retorno completo depois de um exilio. Nem o Uruguai nem eu somos os mesmos.
Maria Bethania também é citada em "A insubmissa".
Quando eu tinha 16 anos, um livreiro que me abaste- com discos (com notável sacrificio de ambas as par- tes, porque éramos pobres) me disse: "Reservei 0 único exemplar que tenho de uma cantora brasileira de que vo- cê vai gostar muito". Era Ma- ria Bethânia. Desde a infân- cia, conservo a paixão pela música. Quando era muito jovem, um jornal de Monte- videu me enviou Punta del Este para entrevistar May- sa, cujo "Ne me quitte pas" arrepiava tanto mim quan- to ao meu cachorro, que ui- vava lastimosamented diante da belissima interpretação da cantora.
ALITERATURAAS VEZES UM RELÓGIO QUE ANDA ADIANTADO', NAPÁG.CONE DE CLÁSSICO DE VISCONTI
A O som do Adagietto da Quinta Sinfonia de Mah- ler, Gustav Von Aschenbach (Dirk Bogarde), exausto su- ado, em uma cadeira de praia no Lido de Veneza, contem- pla na contraluz silhueta de Tadzio (Björn Andrésen), O adolescente cuja beleza 0 fez ficar na cidade italiana, ape- sar da epidemia de cólera, doença que irá matá-lo em instantes. O jovem entra aos poucos no mar de perfil,er- gue o braço esquerdo, apon- tando para O horizonte. As- chenbach tenta levantar-se para aproximar dele. E últi- mc esforço personagem. A sequência encerra "Morte em Veneza" (1971), adaptação de Luchino Vis- conti do romance de 1912 do alemão Thomas Mann, prêmio Nobel de Literatura de 1920. E filme projetou Björn Andrésen como "oga- roto mais bonito do mun- do", definição dada pelo di- retor italiano após a pré-es- treia da produção. Odiretor de "Rocco seus irmãos" contou, anos de- pois do lançamento do fil- me, que havia viajado por toda a Europa em busca da visão da perfeição encarna- da por Tadzio, conforme é descrita no romance de Mann, até chegar a Estocol- mo e escolher Andrésen, em um teste onde O cineasta italiano pediu que ele ficas- se nu da cintura para cima. Mas fama não ajudou: tor- nar a vida do sueco mais facil do que ela já não era, ainda aos 15 anos.
TRAGÉDIA COM SUAMÃE Filho de um pai que nunca conheceu, Andrésen ficou órfão da mãe aos 10 anos, quando ela cometeu suici- dio. A avo, contou 0 ator em
companhar lendas do jazz como O trompetista Miles Davis, os pianistas Kei- th Jarrett e Chick Corea e 0 saxofonista Sonny Rollins já bastaria para Jack DeJohnet- te ser lembrado como um dos grandes bateristas do nero. Mas o músico, que to- cou ainda com os brasileiros Milton Nascimento no ál- bum "Angelus", Gilberto Gil em "Afoxé", disco do compo- sitor baiano com O saxofo- nista Ernie Watts, a pianista Eliane Elias e os percussio- nistas Naná Vasconcellos e Airto Moreira, também teve uma carreira solo de sucesso. A partir de "The DeJohnet- te Complex", de 1969, até "Hudson", de 2017, foram cer- de 50 álbuns que obate- rista comandou ou dividiu a
Só agora sua obra alcança maior visibilidade no Brasil. Como se sente?
Imensa e inesperadamente feliz. Nunca imaginei que isso podia acontecer, ainda que eu tenha introduzido a obra de Clarice Lispector na Espanha e traduzido Graciliano Ramos e Igná- cio de Loyola Brandão. Quando li Clarice pela pri- meira vez, tive a convicção profunda de que aquela era uma literatura feminina. Eu já havia lido Simone de Beauvoir e Virginia Woolf, mas Clarice é diferente: não há uma teoria feminis- ta ali, e sim uma obra in- classificável. Pouco depois de me exilar, trabalhei nu- ma editora e seduzi a dire- tora para traduzir Clarice, então completamente des- conhecida na Espanha.
Adolescente. Tadzio (à esquerda) observado por Von Aschenbach (Dirk Bogarde, direita) em "Morte em Veneza"
OBITUÁRIO BJORN ANDRÈSEN, 70 ANOS
Adulto. Andrésen na apresentação do documentá sobre sua vida
OBITUÁRIO JACK DEJOHNETTE, 83 ANOS
BATERISTA TOCOU COM LENDAS E DEIXOU SUA MARCA NO JAZZ
Também pianista. Jack De Johnette começou na bateria ainda adolescente
CONTINUAÇÃO DA CAPA
ESCRITORA CONTA QUE AMIGO E CRIADOR DE 'O JOGO DA AMARELINHA CHEGOU A ENVIAR A MANÁGUA LIVROS DE AUTORES GAYS PARA DANIEL ORTEGA, 'QUE QUERIA SER ESCRITOR'
Por que você rejeita 0 rótulo de única mulher do boom latino-americano?
Souavessa classificações. Pa- ra mim, nem o amor nem li- teratura tem gênero. Não le- mos Cervantes porque ele é homem (alias, a segunda par- te de "Dom Quixote" contém um excelente discurso femi- nista: "O discurso de Marce- la"), assim como não quero rlidaapenas por mulher.
Em "Julio Cortázary Cris", você sugere que ele teria morrido de Aids devido a uma transfusão de sangue. Por que quis falar abertamente sobre isso? Estava indignada com insi- nuações de que Julio havia contraído Aids porque seria homossexual. Como todas as pessoas inteligentes, Ju- lio não discriminava a ori- entação sexual de ninguém
REVELADO EM MORTE EM VENEZA' COMO 'O GAROTO MAIS BONITO DO MUNDO', ATOR ENFRENTOU DRAMAS DEPOIS DA FAMA QUE FEZ DELE UM SÍMBOLO MUNDIAL DA BELEZA
MÚSICO, QUE GANHOU DOIS GRAMMYS E TAMBÉM TEVE CARREIRA SOLO DE SUCESSO, COMEÇOU NO ROCK E TOCOU COM MILES DAVIS, SONNY ROLLINS, MILTON NASCIMENTO E GILBERTO GIL
liderança de grupos com ins- trumentistas como a baixista Speranza Spalding (em "Sound Travels", de 2011), O guitarrista Pat Methenye anista Herbie Hancock (com quem formou trioem "Pa- rallel realities", de 1990). DeJohnette nasceu em Chicago em 1942 e tocava
e lutava para que em Cuba e Nicaragua (regimes socialis- tas hostis às minorias sexu- ais) não se discriminasse os homossexuais. Uma vez, me chamou para irmos a uma livraria porque queria enviar a (Daniel) Ortega (li- der da Nicarágua) livros de autores homossexuais. Quando Ortega, que queria ser escritor, The dissesse: "Que bom escritor é Manu- el Puig", Cortázar respon- deria que era homossexual. Ri muito. Voltamos com uma mala cheia de livros que ele enviou à Nicaragua. Entre nós havia cumplici- dade e harmonia. As vezes, ele me ligava de Paris, me
um documentário de 2021 sobre sua vida (que não po- deria deixar de se chamar "O garoto mais bonito do mundo"), "queria uma cele- bridade como neto". Assim, encorajou a tentar ser mo- delo e conseguir papeis no cinema. Andresen inicial- mente tentoua música, mas foi O sucesso em "Morte em Veneza" que fez 0 desejo da avó se concretizar. Depois, começaram os problemas.
A imagem de beleza per- feita acompanhou Andre- sen por toda a vida, e 0 ator confessou que experiência 0 fez mergulhar na depres- são e no vício em drogas. "Não tive nenhum proble- ma durante as filmagens", relatou, anos mais tarde. "Mas, uma que termina- ram, senti que era uma es- pécie de presa lançada aos lobos. Fisicamente nada me aconteceu, mas mesmo as- sim foi muitodesagradável". Em 2022, à revista Variety, Andresen foi mais incisivo contra Visconti. "Quando vejo (o filme) hoje, percebo como aquele filho da puta me sexualizou", declarou à revista americana especiali- zada em cinema.
INSPIROU MANGÁS
"Morte em Veneza" tam- bém fez sucesso no Japão, com uma consequência inesperada no mundo dos mangas e animes: os traços de Andrésen impressiona- ram diversos desenhistas, como já haviam feito com Visconti, e O tornaram um arquétipo do bishonen, o personagem jovem e belo dos desenhos japoneses, em mais de uma história em quadrinhos ou animação. Algumas das primeiras históriasdogêneroyaoi,que
piano desde a infância. Ele continuou praticar piano mesmo depois de ter come- çado os estudos de bateria, já na adolescência. A bateria como instrumen- favoritoeo comogêne- ro foram segundas escolhas de DeJohnette. Ele começou cantando em um grupo vocal
"Nossa vingança amor' Autor: Cristina PeriRossi Tradução: Ayelen Medail Cide Piquet Editora: 34 Páginas: 208. Preço: 78. Páginas: 400 Preço: 98.
insubmissa' Autor: Cristina ri Rossi Tradução: Anita Rivera Guerra Editora: Bazar do Tempo Páginas: Preço: R$
tratam do amor entre rapa- zes, como "Moto Hagio" e "Keiko Takemiya", foram in- fluenciadas pela imagem do adolescente do filme de Vis- conti. Lady Oscar, a perso- nagem andrógina do manga (e depois série exibida na Netflix) "A rosa de Versa- lhes", passada durante a Re- volução Francesa, também criadaa partir do rostod sueco.
Osucesso no Japão fez An- drésen passar longas tem- poradas no pais, onde a sua chegada na primeira via- gem chegou a ser compara- da ao impacto da primeira excursão dos Beatles nos Es- tados Unidos. Jovens japo- nesas O cercavam aos gritos em todas as suas aparições públicas. Além de aparecer em comerciais, Andrésen chegou a gravar músicas pop japonesas.
ator continuou a fazer par- ticipações em filmes séries, na maior parte suecas, como em "Wallander", baseada nos romances policiais de suces- sode Hennink Mankell. Mas nunca mais repetiu sucesso de "Morteem Veneza". Aúlti- ma atuação foi no elogiado "Midsommar O mal não esperaa noite" (2019), passa- do na Suécia.
Andrésen foi casado com a poeta Susanna Roman, com quem teve um casal de filhos. A morte do segundo filho, ainda bebê, tambem 0 levou à depressão. Ele te- dois netos. Bjorn André- sen morreu no sabado, aos 70 anos, informou Kristina Lindström, que dirigiu 0 documentário sobre 0 ator de 2021 ao lado de Kristian Petri. A causa da morte não foi revelada.
e tocando rock'n'roll. Mas foi gradualmente atraído pela música instrumental e, a par- tir do fim 1950, criou seu próprio trio.
DeJohnette ganhou dois prêmios Grammy em sua car- reira, que desenvolveu a par- tir de 1973 no selo indepen- dente alemão ECM. O pri- meiro foi de melhor álbum new age por "Peace Time", em 2009, em que também to- cou os sintetizadores. O se- gundo foi de melhor música instrumental, por "Skyline", dividido com 0 pianista Gon- zalo Rubalcaba e 0 baixista Ron Carter, em 2022.
Jack DeJohnette morreu ontem, aos 83 anos, infor- mou a ECM. Ele deixa sua segunda mulher, Lydia, e duas filhas, Farah e Minya.
contava uma anedota e me dizia para escreve-la. Eu fa- zia 0 mesmo com ele.
Um de seus poemas diz: "Os antigos faraos/ ordenavam aos escribas:/ consignaro presente/ vaticinar 0 futuro". Como você vê 0 futuro?
Já estou no futuro que imagi- nei. Ou melhor, que temi! Vi- vi a infância obcecada pelas duas guerras mundiais. Te- mia ditadura me coube viver uma. Tenho medo dos meus proprios prognósticos. Fiquei irritadaquando Corta- zar publicou um folhetim no qual sua jovem esposa, Carol, morria antes dele (o que de fato aconteceu). Repreen- di-o furiosamente. Como Kafka, acreditoque: literatu- ra às vezes é um relógio que anda adiantado. (Ruan de Sousa Gabriel)