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Nas ruas é que me sinto bem

Estado de Minas - Pensar - Belo Horizonte - MG - Sábado, 27 de setembro de 2025

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Nas ruas é que me sinto bem Fabrício Corsaletti lança em Belo Horizonte a antologia de crônicas "Um milhão de ruas", aponta os cronistas mineiros favoritos e conta por que considera o ato de escrever parecido com andar Na apresentação de "Um milhão de ruas", Veronica Stigger afirma que ainda esta para ser criado o que não fascine 0 autor do livro, Fabrício Corsaletti. "Ele se deixa encantar pe- los objetos e motivos mais variados: cavalos, música, uma casa colonial perdida no meio do campo, os anjos do Aleijadinho, todos os bares do planeta etc. E, aos seus olhos, um simples passeio se transforma numa aven- tura", destaca a escritora "Um milhão de ruas' (Editora 34), que tem lançamento neste sabado em Belo Horizon- te, reune dois livros de crônicas publicados anteriormente pelo escritor, "Ela me da ca- pim e eu zurro" (2014) e "Perambule" (2018), e 0 inédito "Bar Mastroianni". Os textos reu- nidos comprovam a afirmação de Stigger: mo faziam os grandes cronistas brasileiros do século 20, Fabricio Corsaletti procura - e en- contra inspiração no cotidiano e avista, no (quase) prosaico, pontos de partida para nar- rativas divertidas, surpreendentes, inespera- das, encantadoras. Os achados se multipli- cam em calçadas, caminhadas, aventuras pe- lo centro das grandes cidades ou na mais ba- nal das situações, como numa tarde" "num bo- tequim andrajoso, bebendo cerveja e maldi- zendo a vida, na luz selvagem de um pais que se destroi". "UM MILHÃO DE RUAS" De Fabrício Corsaletti Editora 34 416 paginas R$92 Lançamento em Belo Horizonte neste sabado (27/9), às 11h, em bate papo do outor com Daniel Arelli. Quixote Livraria (Ruo Fernandes Tourinho, 274, Savassi) Nascido na cidade paulista de Santo Anas- tácio, Corsaletti tem mais de 20livros publica- dos e, com "Engenheiro fantasma", ganhou 0 prêmio Jabuti 2023 nas categorias Poesia e Li- vrodo Ano. Alem das crônicas, as formas bre- ves reunidas em "Um milhão de ruas" in- cluem aforismos ("A única diferença entre um assassino e as outras pessoas éo assassinato") e versos livres de métrica e plenos de alum- bramentos. Pois, como afirma 0 próprio autor na apresentação de "Um milhãode ruas, "on- de ha desejo há linguagem e onde ha lingua- gem as coisas não tem fim." FABRÍCIO CORSALETTI TAMBÉM AS IMAGENS INCLUIDAS NO LIVRO: RUAS COMOFONTE DE INSPIRAÇÃO Leia, a seguir, a entrevista de Fabricio Cor- saletti ao Pensar do Estado de Minas. Por que considera escrever parecido com andar, CO- mo afirma na introdução do livro? Porque, enquanto voce caminha, descobre a cidade. Ve coisas que nem imaginava que existiam Escrever tem a ver com isso. Voce so descobre 0 que queria escrever à medida em que 0 texto vai sendo escrito. Por que afirma, na nota de abertura do livro, as ruas como a unica saida? Para você, sem a rua não tem crônica? Tem um certo posicionamento político nes- sa afirmação. Eu não engulo essa historia de que a internet substituiu a rua. Eu gosto do mundo real. Só acredito que conheci, diga- mos, uma praça depois de in ate la e passar um tempo em cima dela. Foto e video são otimos, mas não bastam. E também tem a ver, é claro, com uma corrente da cronica brasileira, desde João do Rio, que valoriza a relação do cronista com a rua, com 0 mundo fora do gabinete etc. Emuma das crônicas, há uma discussão sobre maior verso da musica brasileira. E, para você, qual a maior crônica da literatura brasileira? Qualquer uma das melhores cronicas do Ru- bem Braga. Para dar 3 exemplos: "Lembran- ça de um braço direito", "Os amigos na praia", "O rei secreto de França". Sao Paulo e Buenos Aires são cenario de algumas das crônicas. que mais te chama atenção em cada uma das cidades? 0 que pertence somente a elas? Em Sao Paulo, gosto dos amigos, tenho mui- tos amigos, e da agitação mental que a cida- de me provoca. E bom pra escrever. Me sinto mais ligado, mais inteligente. Fora de Sao Paulo, e de vez em quando é bom sair de Sao Paulo descansar, sinto que a minha energia criativa fica mais lenta. Nao sei explicar. Es- pero que de pra entender. Buenos Aires e uma cidade deliciosa. Cheia de livrarias, ba- res e cafes muito lindos, carne boa a bom preço e vinhos baratos e otimos. Sem falar que é plana, com calçadas bem cuidadas, ina- creditáveis. Voce pode andar 15 kms olhan- do pro topo dos prédios e não tropeçar ne- nhuma vez. E minha cidade preferida. Ainda pretendo passar uns anos la.SÁBADO, 27 DE SETEMBRO DE 2025 "Eu não engulo essa história de que a internet substituiu a rua. Eu gosto do mundo real. E também tem a ver, é claro, com uma corrente da crônica brasileira, desde João do Rio, que valoriza a relação do cronista com a rua, com O mundo fora do gabinete etc" FABRÍCIO CORSALETTI Ha, no livro, algumas referências a Minas. Quais os cronistas mineiros que mais 0 marcaram? Acima de todos, Paulo Mendes Campos, liri- co e tragico. Do Fernando Sabino, admiro a prosa limpida e precisa. Sei que é sacrilégio dizer isso, mas acho 0 Drummond cronista meio tedioso. Não me convence Ainda mais se penso na poesia genial que ele escreveu. Otto Lara e muito bom. "Crônica é a melhor coisa que 0 Brasil produziu". Concorda com a afirmação que aparece em "Procu- rando sombras"? Qual foi a era de ouro da crônica no pais? Quem diz isso é um personagem. Concordo mais ou menos. E uma das coisas boas do Brasil, entre outras. A musica popular me pa- rece a grande criação brasileira. A poesia é es- petacular também. A Era de Ouro vai do fim da Segunda Guerra até 0 começo dos anos 1970, mais ou menos. Veronica Stigger, na apresentação do livro, revela ter a impressão que tudo 0 fascina encanta a pon- to de o inspirar a escrever. Mas tem algo, alguma si- tuação ou alguem que não rende cronica? Nas mãos de um Rubem Braga (mas Rubem Braga so tem um), tudo pode virar uma boa cronica. Nas minhas, so 0 que e extraordina- rio, 0 que foge a rotina, ao banal. So sei escre- ver sobre 0 que me impressiona, nem que se- ja minimamente Já encontrou assunto para alguma crônica nas ruas de BH? Pra cronica não, mas pra poema sim. Fui duas vezes a BH, fiquei poucos dias. Nas duas vezes comi figado com jiló no Mercado Cen- tral. Adorei. Comeria todo sabado de manha, se pudesse. Anos depois escrevi um poema sobre mercados (leia na pagina 12). Algumas estrofes. Uma estrofe pra cada mercado. Uma delas é sobre 0 Mercado Central. UMA CRÔNICA DE CORSALETTI "O álcool tinha acabado de entrar na minha vida, a poesia não" Em Santo Anastácio, nos anos 1990, houve dois Halloweens No primeiro eu tinha catorze anos, no se- gundo quinze. Nas duas vezes 0 Gustavo e eu fizemos a mesma coisa: num boteco em frente à estação de trem, compramos uma garrafa de vinho Natal pra ca- da e fomos andando e bebendo pela avenida princi- pal até 0 clube proximo ao trevo onde aconteceria a festa. 0 trajeto dava uns quatro quilômetros. Passa- vam carros de amigos e ofereciam carona, mas gen- te recusava, dava mais uma golada no vinho doce e seguia em frente. Aquela hora da noite cidade pare- cia outra mistério nas fachadas conhecidas. 0 álcool tinha acabadode entrar na minha vida. A poesia ain- da não. Euouvia Ramones às vezes, nos terrenos bal- dios, alguma menina me chupava 0 pescoço. Não lem- bro 0 que eu conversava com 0 Gustavo. Qualquer besteira sobre 0 que aconteceria na madrugada, quando todo mundo estivesse louco. então as garra- fas ficavam vazias e a gente não conseguia mais falar. E de repente, flutuando no meio do pasto, surgia 0 galpão de luzes coloridas, de onde saia uma música vagamente idiota. eu olhava pra cima estrelas bor- radas e lua universal. Um cara mais velho se aproxi- mava e perguntava se a gente precisava de ajuda. 0 Gustavo vomitava e, por solidariedade, eu vomitava tambem. Um outro cara nos levava embora. A mes- missima cena dois anos consecutivos. Depois para- ram de fazer Halloweens 0 Gustavo virou boiadeiro. Eu me tranquein quarto dos fundos pra ler Bandei- ra Drummond Os poetas modernos. As grandes ci- dades. Um dia meu tio Mário passou em casa as qua- tro da manhã com a caminhonete abarrotada e me levou pra Sao Paulo. LEIA MAIS TEXTOS DE FABRÍCIO CORSALETTI NA PAGINA 12Fabrício Corsaletti PRIMEIRA LEITURA "Quanto a mercados" (poema inédito) 0 de Belo Horizonte seu figado com jiló comido em pé acompanhado de cerveja cachaça e jornal mineiro às onze da manha 0 de Pinheiros antes e depois da reforma seu vigor de ginásio de esportes sardinha da Rainha baião do Mocoto carne-seca embalada a vácuo e bananinhas-passas na loja do andar de baixo 0 largo da Batata lembra a cidade do México 0 de Lima muito parecido com a parte pobre do de Santiago boxes de azulejo branco sopas servidas em cumbucas de plástico cabeças de porco e galinhas penduradas em ganchos 0 de Montevideu suas parrillas-fornalhas medievais te fazem moleiro pedindo mollejas entre 0 mar gelado e a Cidade Velha dos marinheiros cegos (Do livro "Um milhão de ruas") Certos anjos do Aleijadinho lembram velhos banqueiros bêbados, libidinosos e glutões, com suas bochechas e papadas absurdas. Neles porém não há cinismo. Pelo con- trário, parecem aliviados por terem sido salvos de si mesmos pelo artista generoso. São todos gratos a ele. E um pelo menos é feliz. Nascido em 1978 em Santo Anastacio, no interior de São Paulo, Fabricio Corsaletti mora desde 1997 na capital paulista, onde se formou em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Entre 05 mais de 20 livros publicados, destaca-se "Engenheiro fantasma", vencedor do Jabuti de melhor livro de poesia e livro do ano em 2023. 0 autor estara neste sabado em Belo Horizonte para 0 lançamento, na Livraria Quixote, de sua mais recente publicação: "Um milhão de ruas", coletanea de cronicas e outros textos, lançada pela Editora 34. (Do livro "Um milhão de ruas") Não sei por quê, mas sou fascinado por tapetes. Desses grandes de botar na sala, persas ou falsamente persas, com motivos intrincados que a gente nunca decifra. Rosa- ceas propagando galhos retorcidos de flores que se transformam em arcos que quase en- costam em faixas com riscos de fósforos e fo- cinhos de felinos. Quando era criança eu me irritava com a repetição dos padrões. Eles são de fato hip- nóticos, e se apoderam da visão como a mú- sica que entra no ouvido à nossa revelia. Mas agora eu não ligo de perder 0 controle. Fico um bom tempo olhando os tapetes que en- contro por ai. Não tenho tapete em casa. sou alérgico a poeira e preguiçoso pra usar 0 aspirador. Vou ao aniversário de Maria e, enquanto se fala de política e artes plásticas, abaixo OS olhos e me deixo levar pelas cores e formas do seu tapete. Uma vez passei horas conversando com uma editora de livros em pé em cima de um tapete com bordas que pareciam ripas de madeira entalhadas (janela nova, penteadei- ra antiga) envolvendo um circulo felpudo de lã ul-turquesa flocos pretos cintilantes. Foi como pisar no mapa de outro mundo. Agora lembrei do tapete de Lebowski, 0 protagonista do filme dos irmãos Coen. the dude. ele 0 usava como se fosse uma rede Deitava no seu rug estendido no centro da sala, acendia um baseado e imaginava uma vida melhor: voando pelo céu sem heroismo, ouvindo Dylan entre as estrelas. Conheço uma pessoa que reformou 0 apartamento inteiro, trocou todos os móveis, quadros, talheres e roupas de cama; mante- ve apenas um velho tapete vermelho desbo- tado, que estava com ela desde sempre. Um tapete de confiança. Um tapete sentimental. Se eu fosse um sultão das Mil e uma noi- tes', ia querer só duas coisas: cavalos e tape- tes. Cavalos arabes, os mais resistentes, de tra- ços mais delicados ? com um rabo que empi- na e tremula no ar como bandeira no momen- to em que 0 animal começa a galopar. E tape- tes na areia, sob as tendas do deserto. Nem oca, nem castelo, nem cabana. Tape- tes. Tapetes e toalhas, toalhas e cobertas tecidos de linho puro. Contra a aspereza da realidade que esfola e sem a ilusão de se pro- teger do fim. alivio e vulnerabilidade. tape- tes, olhos e cabelos. e corpos, que se enten- dem sem razão.
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