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Sentimento

Contos de 'No degrau de ouro', da russa Tatiana Tolstáia, dão dimensão do humano e suas angústias

O Globo (On-line) - Notícias - EDITORA 34 - RIO DE JANEIRO - RJ

14/01/2025

'No degrau de ouro'.
Autora: Tatiana Tolstáia.
Tradução: Tatiana Belinky.
Editora: 34.
Páginas: 240.
Preço: R$ 72.
Cotação: ótimo.
Com o início das reformas liberalizantes na URSS, a partir da segunda metade da década de 1980, a literatura russa passou por uma série de transformações. Inúmeras obras até então censuradas vieram à luz, entre as quais clássicos como "Doutor Jivago" (1957), de Boris Pasternak, e "Vida e Destino" (1959), de Vassíli Grossman, além de uma vasta literatura russófona produzida no exterior, de modo que chegava ao fim a barreira que dividia os escritores entre soviéticos e emigrados.
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Mas os efeitos da abertura sobre o meio editorial não se limitaram a pôr em circulação os escritos antes inacessíveis ao público: a nova literatura cortava laços ideológicos e se distanciava do realismo socialista em vigor há meio século, ao passo que se valia de elementos como o nonsense e a paródia sobre o cotidiano para compor os seus quadros. É em meio a essa reviravolta, um ano após a implementação da perestroika, que a contista Tatiana Tolstáia estreia com o livro "No degrau de ouro" (1987), que acaba de ser reeditado pela Editora 34 com a criativa tradução de Tatiana Belinky.
Nascida em 1951 na cidade de Leningrado, atual São Petersburgo, Tatiana Tolstáia pertence a uma aristocracia de notáveis das letras. Entre seus antepassados estão autores como a poeta Natália Krândievskaia, o ficcionista Aleksei Tolstói, o tradutor Mikhail Lozínski e ninguém menos que o conde Lev Tolstói, o celebrado autor de "Guerra e Paz". O peso do sobrenome, no entanto, não a intimidou e tampouco significou uma existência à sombra de seus familiares: após quase uma década de trabalho em uma editora soviética, a veia criativa de Tolstáia começou a dar sinais aos 32 anos, enquanto se recuperava de uma cirurgia, período de gestação dos contos que iriam compor cinco anos mais tarde o livro "No degrau de ouro".
O livro é dividido em 13 narrativas curtas. Cada enredo ilumina uma existência particular e tem a exata dimensão do humano e suas pequenas angústias. Os personagens de Tatiana Tolstáia são simbólicos, geralmente velhos e crianças, cada qual em uma ponta da existência - vida e morte, descoberta e desencanto, tradição e novidade.
Essa dualidade aparece com clareza em contos como "No degrau de ouro" e "Churra querida", em que o primeiro parte do ponto de vista de uma criança para quem a morte de seus parentes e amigos parece não existir ("a vida é eterna, só os pássaros morrem"); e no segundo, em torno de uma idosa, a morte aparece voluptuosa e onipresente, onde todos os vínculos com o passado repousam em cemitérios. Outro conto, intitulado "Bem me quer, mal me quer", refaz o percurso de um abajur, de sua compra até o inevitável destino até a lixeira, sobre o qual a narradora pontua com uma elegante frase em latim que poderia descrever qualquer um dos personagens do livro: "Toda glória do mundo é transitória."
'Memento mori'
Ao contrário do realismo socialista, a História não aparece nos enredos de Tatiana Tolstáia como um fim ou uma verdade a ser construída, mas sim como uma ruína que se desenha nos corpos como assinatura da passagem do tempo. Uma idosa, diante das lembranças de um amante dos verdes anos de juventude, olha para o próprio corpo e dele extrai um testemunho: "Foi este rabinho de rato que sessenta anos atrás envolvia-lhe os ombros qual negra cauda de pavão? Foi nestes olhos que se afogou? (...) Aleksandra Ernéstovna geme e procura os chinelos com os pés nodosos." Mais uma vez, o contraste entre a juventude solar e a velhice sombria. Ao fim, os pés decrépitos e nodosos fazem lembrar que o tempo é implacável e anuncia a morte. Memento mori.
As personagens também não escapam à Revolução e seus desdobramentos. Uma delas, idosa, move em círculo "os seus pés pré-revolucionários"; outra, ainda criança, não passou pelas grandes privações, "nasceu depois da guerra e não respeita a comida". Trânsito semelhante entre épocas se manifesta na postura da autora diante da herança que a antecede: ao se afastar dos esquemas ideológicos da literatura revolucionária, Tolstáia retoma os clássicos do século XIX e se apropria do folclore eslavo e sua linguagem fabular: em consonância com a criatura Viy, dos contos de Gógol, ela apresenta um assustador Dragão-Serpente; em um lamento frente ao tempo implacável, evoca o poeta Tiútchev ("Oh, como no declínio dos nossos anos..."); ao fazer troça de sua preceptora, uma personagem arrisca trocadilhos maldosos com os versos que Púchkin dedicou à babá de sua infância.
A ruptura com o modelo literário socialista não significa, no entanto, uma saída pela alienação. Ao contrário, "No degrau de ouro" é uma obra absolutamente contemporânea de seu momento histórico e das mudanças pelas quais passava a União Soviética nos anos de Gorbachev. A despeito de não tratar de assuntos diretamente políticos, todos os contos de Tatiana Tolstáia carregam, em maior ou menor grau, uma atmosfera de aflição diante das incertezas do futuro, alegoria para o sentimento que certamente recaiu sobre os cidadãos soviéticos diante do colapso no país. No âmbito pessoal, a cisão com o realismo socialista pode esconder um certo impulso de rebeldia cuja explicação talvez caiba à psicanálise: afinal, Aleksei Tolstói, seu avô, foi o presidente da União dos Escritores Soviéticos entre 1936 e 1938, durante os expurgos stalinistas, quando muitos escritores foram enviados para o cárcere.
Aclamada pelo poeta Joseph Bródsky como "a voz mais original, tangível e luminosa da prosa russa atual", não espanta que a primeira edição de sua obra tenha se esgotado em pouco mais de quatro horas - afinal, Tolstáia mostrou como ninguém que assim como toda glória do mundo é transitória, nenhuma tempestade dura para sempre.
André Rosa é crítico e doutorando em Literatura Comparada pela UFRJ
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